segunda-feira, 8 de abril de 2013

Histórias de outros mundos

Revistas pulp tinham histórias de gênero e hoje são consideradas artigos raros além de berço dos quadrinhos de super-heróis

Lendo “pulp”, você muito provavelmente se lembra do filme Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino, ou da banda inglesa que foi ícone nos anos 1990. Ambos terem a mesma palavra no nome não é apenas coincidência. Trata-se de referências às revistas pulp.

Impressas em papel barato – fibra lignocelulósica produzida a partir de madeira – e com bordas mal cortadas, elas custavam centavos e abrigavam histórias de terror, ficção científica e mistério, entre outros gêneros. As capas coloridas e de aspecto sensacionalista, com monstros, robôs gigantes e heróis em ação ou mocinhas em perigo são uma das marcas registradas dos pulps. A linguagem era a combinação de textos e ilustrações no miolo. Havia também propagandas de outros pulps da mesma editora.

História

A primeira revista do estilo foi a norte-americana Argosy Magazine, de Frank Munsey, lançada em 1896. Tinha 192 páginas e nenhuma ilustração na capa ou internamente. Antes desse lançamento, ninguém havia agregado impressão a papel barato e escritores idem. O preço era acessível às classes mais pobres. Resultado: em seis anos, Argosy já vendia quase meio milhão de cópias mensais.


As revistas pulp começaram a ganhar força nas décadas de 20 e 30. Afinal, tratava-se de entretenimento barato na época em que os Estados Unidos estavam na maior pindaíba por causa da quebra da bolsa de 1929. A coisa mudou na época da Segunda Guerra Mundial, com a popularização das histórias em quadrinhos, da TV e dos romances impressos em papel barato. Em 1949, a Street & Smith Publications – uma das maiores publicadoras especializadas em revistas pulp e romances baratos dos EUA – cancelou vários títulos e decidiu seguir em frente investindo em revistas mais caras.

Mas durante essas três décadas, as revistas pulp se consagraram ao lançar personagens icônicos como Flash Gordon, Zorro e Tarzan. Vários autores respeitados de diferentes gêneros passaram por essas revistas. Isaac Asimov, Agatha Christie e H. P. Lovecraft são exemplos. Hoje, os pulps são considerados o berço dos quadrinhos de super-heróis.

Curiosidade: lá nos anos 30, o grande sucesso da série de rádio O Sombra, que ficou conhecida pelos episódios que tinha a lenda do cinema Orson Welles como o personagem título, acabou resultando em um famoso pulp escrito por Walter B. Gibson.

Conheça alguns pulps

Amazing Stories (1926-2005): Foi criada pelo luxemburguês-americano Hugo Gernsback, um inventor e entusiasta da eletricidade. A revista é considerada um dos berços da ficção científica moderna, visto que na época, o termo ainda nem existia completamente. Gernsback escreveu no prefácio do primeiro número, apresentando seu “Novo Tipo de Revista”, engrenada a um “mundo inteiramente novo” que instruiria além de entreter. Edgar Allan Poe, Júlio Verne e H.G. Wells são citados como seus “antepassados”. A premiação Hugo Awards menciona Gernsback em seu nome. Os prêmios são dados a autores e obras em diferentes mídias, sempre com foco nos gêneros de ficção científica, fantasia, terror e afins.

 


The Weird Tales (1923): Apesar de sempre ter lucrado pouco com suas baixas tiragens, a revista existe até hoje. Foi interrompida em 1974, mas reavivada por outros editores com o passar dos anos. Poesia, ficção e não ficção eram os gêneros da revista, que abordavam histórias de fantasmas, invasões alienígenas e forças ocultas. Desde que a revista foi assumida em 2007 pela editora Ann VanderMeer, a Weird Tales ganhou um Hugo Award na categoria “Semiprozine” (para revistas semiprofissionais) e teve mais duas indicações.

 




Ginger Stories (1928-1936): As capas das revistas prometiam um conteúdo “picante, pungente, apimentado, agradável”. Em 1931, o título foi alterado para apenas Ginger pelo seu editor, Frank Armer. A revista é pioneira no que se trata de girlie pulps, com capas que realmente traziam “mocinhas” com um notável aspecto erótico. Armer era editor de pulps semelhantes e chegou a ser pressionado, junto com outros colegas, pelo Comitê pela Decência Civil de Nova York em 1932, pelo conteúdo “indecente” das revistas. O editor cedeu e cessou a produção. Reavivada em 1935 por Henry Marcus, Ginger teve uma versão completamente diferente até em seu aspecto físico, passando por várias casas editoriais até terminar de vez em 1936.

Pulps no Brasil

Aqui no nosso país, as revistas pulp ficaram conhecidas como “revistas de emoção”, segundo o colecionador e pesquisador Athos Eiclher Cardoso, da Universidade de Brasília.

Especula-se que a primeira tenha sido a Romance Mensal: Uma Revista Diferente das Outras, lançada em 1934. Dois anos depois, vieram Aventura e Mistério, Detetive e A Novela, que em seus dois anos de vida teve Erico Verissimo como editor, na Livraria do Globo.


A Contos Magazine é um exemplo de sucesso. Foi lançada em 1937 e terminou em 1945 com tiragens de 40 mil exemplares com histórias de piratas, ficção científica e western. O Sombra, personagem ícone, também apareceu nessa revista. X-9 (1941-1962) e Meia-Noite (1948-1968) são outros títulos relevantes das revistas de emoção e publicavam histórias de crime, horror e ficção científica. Na década de 40, Nelson Rodrigues foi editor da Detetive e escrevia nela sob o pseudônimo “Suzana Flag”.


A primeira revista brasileira de ficção científica foi a Fantastic (1955-1961), também conhecida como Cine-Lar Fantastic, e teve sua origem na americana de mesmo nome e lançou 12 números. A segunda foi Galáxia 2000, versão da The Magazine of Fantasy and Science Fiction, publicada pela Edições O Cruzeiro. Teve gênese em 1968, fechou pouco depois e retornou em 1970 sob o título Magazine de Ficção Científica e teve edição de Jerônymo Monteiro, figura da sci-fic brasileira, na Livraria do Globo. A revista durou 20 números e fechou no ano seguinte por conta das baixas vendas e do falecimento de seu editor. 

Antonio D’Elia, Patrícia “Pagu” Galvão (usando o pseudônimo “King Shelter”) e R. F. Lucchetti, roteirista de vários filmes do Zé do Caixão, são alguns nomes de escritores de pulp brasileiro.

Opiniões de um fã

No exterior, as pulp magazines representam um momento na história da humanidade, certamente único, em que a leitura foi a forma número um de entretenimento moderno”, diz Roberto de Sousa Causo (foto à direita), escritor e grande fã de pulps. “Delas resultaram a quase totalidade dos gêneros literários modernos, e no seu surgimento elas ajudaram a mapear uma nova paisagem psicossocial. É na literatura de gênero, como afirma o pesquisador inglês Clive Bloom, que está o verdadeiro registro do sensorium da sociedade democrática moderna.”
  
Causo já trabalhou como escritor e ilustrador na Isaac Asimov Magazine: Contos de Ficção Científica, e editor na Quark e Pery Rhodan. Escreveu os livros Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 e organizou a série de antologias Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica – alguma dúvida de que Causo é influenciado pelas revistas pulp?

Ele diz que elementos das publicações estão por toda parte, impregnados na literatura de gênero atual. “Como escrevo ficção científica, fantasia e horror, a partir de uma postura consciente da história e das características desses gêneros, estou igualmente impregnado pelo ethos* pulp.

Pulps hoje

Caso você esteja se perguntando sobre o filme de Tarantino, sim, o título de Pulp Fiction é uma menção às revistas. E isso está em seu conteúdo também, pois os elementos de sua trama são a cara das histórias em papel barato. Inclusive, Black Mask, um dos pulps mais conhecidos, serviu de inspiração para o cineasta. Durante algum tempo, o filme teve esse nome como título provisório.

Já a banda inglesa Pulp tem esse nome por causa do filme Diário de um Gângster (1972), em que Michael Caine interpreta um escritor de romances de detetive que são impressos no estilo “paperback”, com as páginas coladas e sem capa dura.

O quadrinho Tom Strong, do inglês Alan Moore (o escritor barbudo por trás de Watchmen e V de Vingança), lançado em 1999, é fortemente inspirado em pulps, além de ter bebido na fonte de histórias em literatura, filmes e quadrinhos dos anos 20 para ser criado.

Recentemente, Dan DiDio, co-publisher da DC Comics, disse que a editora não tem mais direitos de publicação de antigos personagens pulp como Doc Savage, The Spirit e Rima. O blog TheBeat disse que a Warner Bros., estúdio que leva ao cinema adaptações de títulos da DC, sugeriu à editora não investir em personagens antigos e não rentáveis enquanto há vários outros “subaproveitados”.

Outros pulps

Cheque no blog Monster Brains algumas artes de pulp mexicano.

Conheça a revista brasileira Lama, que conta histórias através de texto, ilustrações e fotografias. Todas bem no estilo pulp de ser.

O site pulpword.com tem um acervo de pulps à venda e muitas informações sobre o assunto.

O pulpartists.com também tem um grande acervo de imagens, incluindo o miolo de algumas revistas.

The Pulp Magazines Project é outro site bem interessante, onde o objetivo é estudar e preservar as revistas. Há um acervo também.
 
* “Ethos” é um termo grego que significa “personagem” e é usado para designar os costumes de um povo ou uma ideologia
* Imagens são reproduções de: Pulp Mags (Wordpress) / Mercado Livre / The Pulp Magazines Project / Arquivo pessoal do escritor / Fascination Place / Arquivo pessoal do jornalista

3 comentários:

Silvio César disse...

Grande artigo! Os pulps são a base de tudo que está ai. Pena que as pessoas esquecem disso.

Caio Delcolli disse...

Sim, Silvio, infelizmente, os pulps são bem negligenciados hoje, mas fica aí o legado deles. Será que um dia eles voltam com mais força?

Obrigado pela visita e pelo comentário, Silvio. Volte sempre.

Abs.

Michael Goulart disse...

Seguindo seu blog! Confere lá o meu taduvidando.blogspot.com.br